Os cartões de crédito e débito estão sendo banidos do mercado. Ninguém quer aceitá-los.

Bem que o Fernando (o Roubini brasileiro) alertou.

…até as boas notícias, como uma alta nas ações de uma das maiores empresas da Europa, podem desestabilizar o mercado.

Depois de anúncio da Porsche de que detém 74% dos papéis da Volkswagen, as ações da VW subiram de 200 para quase 1000… Por quê?

Porque os hedge funds estavam vendidos até o pescoço e tiveram que entrar em uma corrida fratricida pela zeragem – já que restaram pouco mais de 5% de ações em circulação. Estima-se a perda dos fundos em quase 40 bilhões de dólares.

Justo neste momento em que muita gente já os colocava na beira do abismo, a ponto de quebrarem e provocarem um novo tsunami no mercado…

Em artigo no Market Watch, Robert Pretcher Jr dfende que ainda não vimos o pânico atingir o mercado. Ao contrário do que vários analistas vêm prevendo – que estaríamos perto do fundo, depois de vendas desesperadas – Pretcher lembra que os momentos de pânico costumam se caracterizar por um aumento no volume dos negócios.

Pois bem: os maiores volumes durante a crise foram em dias de alta. Ou seja, de acordo com Pretcher a esperança ainda é maior que o medo (e ainda há dias piores por vir, quando se inverter essa relação).

Se durante a semana circularam muitos boatos sobre o Unibanco, hoje o mercado parece ter levado mais a sério estas especulações.

As ações do banco abriram caindo forte e chegaram a registrar queda de mais de 20%. Agora, próximo ao fechamento, caem “apenas” 8%.

Parece o script normal destes dias de crise, quando o pânico é seguido por uma melhora, quando os ânimos se acalmam. Foi o que aconteceu em NY hoje, por exemplo. No entanto, o caso do Unibanco é um pouco diferente: uma olhada no resumo dos negócios mostra que, dos cerca de R$ 400 milhões negociados, metade do volume de compra (200M) partiu da Investshop, a corretora do banco.

Ou seja, o Unibanco jogou pesado pra segurar suas ações. Funcionou hoje, mas este tipo de estratégia pode chamar mais especuladores para apostar contra o banco e provocar uma queda de braço que pode ter um desfecho bem feio…

Se passamos tranquilos pelo 20 de outubro, que já tinha tido seus riscos relatados em post anterior e pelo 21 (com as baixas contábeis do Lehman), as coisas pareciam um pouco mais calmas.

Ontem, entretanto, a forte baixa não deixou dúvidas de que provavelmente o pânico ainda não foi embora.

Para Nouriel Roubini, ainda deve piorar. De acordo com ele, uma corrida aos hedge funds pode levar as autoridades americanas a fechar os mercados por (pasmem…) uma ou duas semanas!

Custo a crer em um cenário como esse, mas a verdade é que, desde quando o Dr. Doom ainda era motivo de piada por conta de seu pessimismo, ele vem acertando quase todas as previsões.

É impossível saber ao certo qual foi o impacto da proibição das vendas descobertas (ou short selling) no mercado americano. Mas uma coisa é fato: deve ter muita gente se coçando pra poder voltar a vender e apostar na queda de vários ativos.

De acordo com a SEC (Securities and Exchange Comission), a proibição vale até o dia 17, à noite:

Temporary prohibition of short selling in financial companies. This order will be extended beyond its currently scheduled expiration, to allow time for completion of work on the anticipated passage of legislation. It will expire at 11:59 p.m. ET on the third business day after enactment of the legislation, but in any case no later than 11:59 p.m. ET on Oct. 17, 2008.

17 de outubro é uma sexta, logo as vendas só estarão liberadas na segunda seguinte (20). A esperança é que até lá (?!) o “Plano Paulson” faça efeito.

Só a título de curiosidade, não vai aqui nenhuma previsão: a chamada Black Monday, em 1987, quando a bolsa americana sofreu um crash e caiu mais de 20%, aconteceu no dia 19 de outubro…

A maioria das pessoas – este blog, inclusive – tende a se balizar pelos mercados financeiros nestes momentos de crise. (E aqui vai também um pedido de desculpas aos escassos leitores. Tem faltado tempo para atualizar o blog e acompanhar a crise mais de perto.) Dois relatos, um vindo de fora, outro aqui mesmo do Brasil, entretanto, chamam a atenção para a escassez de crédito no mercado:

De Nova York, Nouriel Roubini diz:

Yesterday Thursday a senior market practitioner in a major financial institution wrote to me the following:

Situation Report: So far as I can tell by working the telephones this morning:

  • LIBOR bid only, no offer.
  • Commercial paper market shut down, little trading and no issuance.
  • Corporations have no access to long or short term credit markets — hence they face massive rollover problems.
  • Brokers are increasingly not dealing with each other.
  • Even the inter-bank market is ceasing up.

This cannot continue for more than a few days. This is the economic equivalent to cardiac arrest. Then we debated what is necessary to restart the system.

Fernando Blanco segue na mesma linha:

Se fizessem uma escala de importancia entre os executivos – publicos e privados – do mercado de trade finance do Brasil, eu diria que ontem eu conversei longamente com o número 1 e com o número 2. O que ouvi foi uma calamidade. Os bancos internacionais, que já tinham estendido linhas de crédito para ACC, ACE, financimento de importação, pré-pagamento, etc., estão cobrando TODAS estas linhas no vencimento. Isto é, não há rolagem possível. São USD 5 bilhões por mês. Não é a toa que o Presidente Lula acordou e parou de falar pérolas do tipo “o problema é do Bush”, “o Bush, resolve os seus problemas aí, meu filho”, lembram-se?

Entrevista essencial, de 44 minutos com Nouriel Roubini:

Bloomberg Radio

Desde que começou a crise americana, tem sido comum ouvir analistas tranquilizarem os brasileiros dizendo que nossas empresas estariam protegidas. Afinal, de acordo com eles as companhias nacionais não especulam no mercado financeiro, usam os instrumentos derivativos apenas com o intuito de fazer hedge. O prejuízo anunciado ontem pela Sadia vem desmentir essa história. Até que ponto há outras empresas especulando da mesma forma é difícil saber, mas não duvide que sejam várias.

A verdade é que o mercado empresarial anda cada vez mais competitivo. Jovens profissionais são constantemente pressionados a produzir resultados cada vez melhores. (É a tal política de metas, que parte do princípio que é possível melhorar eternamente. É um conceito extremamente discutível do ponto de vista lógico ou matemático, mas totalmente aceito no âmbito empresarial.)

Por outro lado, temos funcionários que passam cada vez menos tempo na mesma empresa. Seu compromisso é muito mais com a própria carreira, com os resultados que vai adicionar ao seu currículo. Um sociólogo inglês, Richard Sennett escreveu um livro chamado “A Corrosão do Caráter” sobre esse tema. O José Paulo Kupfer publicou, há algum tempo, um artigo sobre ele que vale ser lido. Na época discutia-se o operador que causou prejuízo de bilhões ao BNP Paribas. Hoje aconteceu fato semelhante na Sadia.

Vajam só: uma indústria cujo ramo de atuação é o setor de alimentos perde em uma jogada especulativa seu lucro de todo o ano. Provavelmente vão achar um culpado, como acharam no caso do banco francês.

Não se enganem, todo o sistema é culpado. A crise que assistimos é decorrência extamente deste tipo de exposição ao risco, incentivada e premiada (até a bancarrota) pelo mercado. Enquanto não mudar a mentalidade do empresariado – e do investidor, que pressiona os administradores por lucros astronômicos, sem querer saber como foram conseguidos – não mudarão as práticas e continuaremos a conviver com crises como essa, cada vez maiores…

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UPDATE: Podem incluir a Aracruz na confusão. De acordo com a Folha:

Em comunicado ao mercado, a Aracruz reconheceu que algumas de suas aplicações financeiras foram fortemente influenciadas “pela recente instabilidade das cotações do dólar norte-americano decorrente do momento de grande volatilidade dos mercados mundiais”.

Sem quantificar prejuízos, a companhia se limitou a dizer que “o volume de perda máximo em derivativos e de exposição máxima em operações de câmbio futuro decorrente de tais operações pode ter excedido os limites previstos na Política Financeira aprovada pelo Conselho de Administração”.

Mesmo que por um caminho enviesado a crise parece ter chegado ao Brasil. Em comunicado ao mercado, a Sadia anuncia perda de 750 milhões de reais:

SADIA S.A. (“Companhia”), em atendimento ao disposto no Paragrafo 4o do Art. 157 da Lei n. 6.404/76, na Instrucao CVM n. 358/02 e ao OFICIO/CVM/SEP/GEA-2/N. 234/08 desta data (25/09/2008), vem informar aos seus acionistas e ao mercado o seguinte.

1. A Diretoria Financeira realizou operacoes no mercado financeiro relacionadas a variacao do dolar dos Estados Unidos em relacao ao Real em valores superiores a finalidade de protecao das atividades da Companhia expostas a variacao cambial.

2. Diante da severidade da crise internacional agravada na ultima semana e da alta volatilidade da cotacao da moeda norte-americana, que ocorreu muito rapidamente, o Conselho de Administracao, tomando conhecimento da realizacao de referidas operacoes, determinou o reenquadramento da exposicao aos padroes de riscos e limites estabelecidos no ambito das politicas financeira e de cambio da Companhia.

3. Neste sentido, a Companhia decidiu liquidar antecipadamente determinadas operacoes financeiras, o que ocasionou perdas de cerca de R$ 760.000.000,00.

4. O fato ocorrido limitou-se a operacao financeira da Companhia, em nada afetando suas atividades industriais e comerciais, as quais continuam em expansao.

5. A Companhia mantera os seus acionistas e o mercado informados acerca da evolucao dos fatos ora comunicados.

Fonte: Infomoney

Só pra se ter uma idéia: o lucro da empresa nos seis primeiros mese do ano foi de R$ 334,8 milhões…

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