Ainda não estão claros os detalhes, mas parece que entrarão as punições aos executivos das empresas em dificuldade e a troca dos títulos podres por ações. Resta saber em que proporção…

Por enquanto, as dúvidas continuam maiores que as certezas.

Quem chamou a atenção foi o amigo Seagull, há quase uma semana. Com essa crise, entretanto, só deu pra postar hoje:

Caso a tomada do controle aconteça de fato na Brasil Telecom, o valor da OPA obrigatória com tag along (80% do valor da aquisição de R$72,3058) para os acionistas minoritários ficou estabelecido em R$57,85, mais a correção feita com base em 100% do CDI desde 28 de abril de 2008 – que já faz o valor presente passar de R$ 61,00.

Dessa forma, a aplicação seria uma espécie de renda fixa (com uma rentabilidade de cerca de 25%), onde o risco seria o de a fusão não acontecer. Pessoalmente, eu duvido que a esta altura do jogo, depois de investir tantas forças nessa BrOi, o governo volte atrás.  Entretanto, sou obrigado a confessar que, depois de tanta confusão (não podia ser diferente, afinal sempre foi assim com a Telemar), acabei parando de acompanhar este imbroglio

Fica a dica: apareçam lá no fórum do Monitor Investimentos e conversem pessoalmente com o Seagull.

Para quem ainda tem dúvidas sobre a seriedade da crise, basta dizer que a Globonews transmitiu durante os quase 15 minutos ao vivo.

Para quem esperava um discurso a la Roosevelt, foi uma decepção.

Para quem queria esclarecimentos, não foi a sétima maravilha do mundo, mas serviu para deixar claro um ponto: parece que os créditos podres serão comprados pelo valor de mercado, e não pelo de face:

“The government is the one institution with the patience and resources to buy these assets at their current low prices and hold them until markets return to normal.”

Não se enganem. Foi exatamente isso que o mega-investidor Warren Buffett adquiriu hoje. A fatia do Goldman Sachs comprada por seu fundo Berkshire foi simplesmente a forma mais prática encontrada para não ficar alheio ao processo decisório, neste que é um dos mais importantes momentos da economia americana em todos os tempos. Informação é poder.

ps: Paulson era funcionário do Goldman Scahs.

Martin Wolf, o respeitado articulista do Financial Times critica bastante, em sua coluna de ontem, o atual plano de resgate do sistema financeiro.

O problema fundamental com o projeto de Paulson, como está proposto, é que ele não é necessário ou tampouco eficiente. Não é necessário porque o Fed de controlar a falta de liquidez através de suas operações de crédito. Não é eficiente porque só consegue lidar com a insolvência através da compra de títulos ruins a preços bem acima do seu valor real, garantindo assim grandes perdas para os contribuintes(…)

Para Wolf, é necessária uma outra solução, capaz de desalavancar o sistema financeiro e aumentar a liquidez do mercado sem usar o dinheiro público.

Leia o artigo completo: Paulson’s plan was not a true soluction to the crisis

Apesar de toda a discussão em torno vários pontos do projeto de resgate do sistema financeiro apresentado pelo governo americano, as principais divergências giram mesmo em torno da questão da atribução de valor aos títulos podres (ou tóxicos, para usar a expressão da moda).

Parece que a tentativa de desviar a atenção tentada por Paulson e comentada por este blog não surtiu efeito.

De acordo com a proposta atual, os bancos repassariam os títulos ao Tesouro pelo valor de face. É um absurdo, afinal, se esses bancos foram incopetentes na admnistração de risco é injusto que agora recebam um punhado de dólares por papéis que valem centavos. Por outro lado, a solução mais justa, que seria a chamada marcação a mercado, ou seja, a atribuição do valor real de mercado a estes títulos obrigaria as empresas a lançarem este prejuízo contábil em seus balanços. Ainda existe muita coisa debaixo do tapete e a súbita revelação da situação financeira dos bancos pode levar a uma nova corrida contra eles. Poderia se repetir, em escala maior, o que ocorreu ao Lehman e à AIG.

Uma solução intermediária seria a contrapartida ao contribuinte, em forma de ações das companhias financiadas. Nesse caso, as próprias instituições seriam obrigadas a encontrar um meio termo, que possibilitasse que não tivessem prejuízos monstruosos, mas que permitisse manter o maior controle acionário possível. O grande problema é a palavra possível na frase anterior. Ninguém – talvez nem mesmo as próprias instituições – tem certeza de quanto estamos falando. É possível que essa saída representasse a estatização de boa parte do sistema financeiro americano. Será que os EUA estão preparados para isso?

Assim, a semana segue em ritmo de apreensão, com o recesso parlamentar se aproximando (afinal, as eleições estão logo aí e os congressistas têm que manter seu emprego). Para apimentar ainda mais, nesta sexta à noite ocorre um debate entre Obama e McCain.

Na última semana, Andrew Lahde, fundador do California’s Lahde Capital, um pequeno hedge fund americano, enviou uma carta aos quotistas anunciando a dissolução do fundo. Ao contrário do que pode passar pela sua cabeça em um primeiro instante, a decisão não foi resultado de perdas catastróficas com a recente crise no mercado americano. Muito pelo contrário, desde o ano passado Lahde vem apostando nesse cenário e deve proporcionar um belo rendimento aos seus investidores (segundo um deles declarou ao Financial Times, até o final de agosto o resultado positivo era de cerca de 40%).

Ainda de acordo com o FT, o gestor dos fundos de melhor performance nos dois últimos anos está “abandonando o barco” pois acha que o mercado está muito arriscado. Há oportunidades, ele admite, mas não compatíveis com o volume de risco que é necessário assumir.

Quando uma declaração desta vem de alguém como ele, é porque o nível de tensão e de incerteza nos mercados americanos está muito maior do que a gente consegue imaginar olhando daqui.

info: Financial Times

Post de sexta-feira (19/09) no blog do Sardenberg:

“Vejam vocês: quem comprou ações na Bovespa na quarta-feira, o pior dia dos mercados mundiais em décadas, está ganhando hoje algo como 15%.

Na quarta-feira (17), esse investidor seria um louco. Hoje, corajoso e visionário.”

Na quarta-feira ele já tinha decretado que o Ibovespa valia mais do que os 45k que marcava. Pode parecer implicância com a imprensa, e talvez até seja. Mas eu acredito que alguém que é um dos principais analistas econômicos do maior conglomerado de comunicações do país não pode fazer este tipo de coisa. Eu, que não devo ter nem meia-dúzia de leitores, tomo o maior cuidado com o que digo por aqui…

O que o sujeito que não entende nada de mercado e lê isso pensa? “Poxa, a poupança dando 6% ao ano e eu podia ter tirado 15 em dois dias. Da próxima vez que cair, vou comprar…”. Acontece que não é tão simples. O exemplo do Márcio Noronha na entrevista que postei outro dia é bem didático. Alguém que investisse 10 reais na bolsa em 1971 teria algo em torno de 50 centavos em 1980.Alguém que comprasse no fechamento da sexta passada, data do post, já teria perdido quase 3%. Mas eu garanto que isso ele não vai comentar.

Sabem o que é pior? Nos 60 mil pontos os comentaristas também diziam que era só uma correção passageira. Hoje, fingem que não era com eles e falam que agora está barato mesmo. Até o próximo fundo…

Nos últimos anos era comum ver a Irlanda citada como exemplo de crescimento. Hoje o país é um exemplo da extensão da crise que começou nos EUA e ameaça tomar de assalto o resto do mundo.

Neste momento, já próximo do fechamento, a bolsa irlandesa cai quase 7%, depois de ter atingido queda superior a 8% durante o dia, registrando o valor mais baixo em onze anos.