Desde que começou a crise americana, tem sido comum ouvir analistas tranquilizarem os brasileiros dizendo que nossas empresas estariam protegidas. Afinal, de acordo com eles as companhias nacionais não especulam no mercado financeiro, usam os instrumentos derivativos apenas com o intuito de fazer hedge. O prejuízo anunciado ontem pela Sadia vem desmentir essa história. Até que ponto há outras empresas especulando da mesma forma é difícil saber, mas não duvide que sejam várias.

A verdade é que o mercado empresarial anda cada vez mais competitivo. Jovens profissionais são constantemente pressionados a produzir resultados cada vez melhores. (É a tal política de metas, que parte do princípio que é possível melhorar eternamente. É um conceito extremamente discutível do ponto de vista lógico ou matemático, mas totalmente aceito no âmbito empresarial.)

Por outro lado, temos funcionários que passam cada vez menos tempo na mesma empresa. Seu compromisso é muito mais com a própria carreira, com os resultados que vai adicionar ao seu currículo. Um sociólogo inglês, Richard Sennett escreveu um livro chamado “A Corrosão do Caráter” sobre esse tema. O José Paulo Kupfer publicou, há algum tempo, um artigo sobre ele que vale ser lido. Na época discutia-se o operador que causou prejuízo de bilhões ao BNP Paribas. Hoje aconteceu fato semelhante na Sadia.

Vajam só: uma indústria cujo ramo de atuação é o setor de alimentos perde em uma jogada especulativa seu lucro de todo o ano. Provavelmente vão achar um culpado, como acharam no caso do banco francês.

Não se enganem, todo o sistema é culpado. A crise que assistimos é decorrência extamente deste tipo de exposição ao risco, incentivada e premiada (até a bancarrota) pelo mercado. Enquanto não mudar a mentalidade do empresariado – e do investidor, que pressiona os administradores por lucros astronômicos, sem querer saber como foram conseguidos – não mudarão as práticas e continuaremos a conviver com crises como essa, cada vez maiores…

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UPDATE: Podem incluir a Aracruz na confusão. De acordo com a Folha:

Em comunicado ao mercado, a Aracruz reconheceu que algumas de suas aplicações financeiras foram fortemente influenciadas “pela recente instabilidade das cotações do dólar norte-americano decorrente do momento de grande volatilidade dos mercados mundiais”.

Sem quantificar prejuízos, a companhia se limitou a dizer que “o volume de perda máximo em derivativos e de exposição máxima em operações de câmbio futuro decorrente de tais operações pode ter excedido os limites previstos na Política Financeira aprovada pelo Conselho de Administração”.